Entrevista Will Eisner - 1997

Will Eisner esteve em Belo Horizonte em outubro de 1997, quando participou da III Bienal Internacional de Quadrinhos, realizada pela Secretaria Municipal de Cultura. Incansável, por onde esteve, o pai de Spirit reuniu um séquito de admiradores, ávidos pelo relato de suas experiências e, sobretudo, por seus prognósticos sobre o futuro dos quadrinhos, num momento em que também essa forma de expressão literária comemorava o seu primeiro século de existência. Para ele, uma coisa é certa: os cartunistas sobreviverão.
Veja, a seguir, a transcrição de parte do debate realizado durante sua participação nas Conferências do Centenário.
P: Qual é a sua ideia sobre filme de animação? E sobre Walt Disney?
Eisner: Uma importante característica dos quadrinhos é a prática de pedir ao leitor que contribua com a história. A diferença entre um filme ou desenho animado e o quadrinho é que o filme é um recurso do espectador passivo e o quadrinho é um recurso participativo. O filme oferece uma realidade artificial e o quadrinho exige de você uma resposta intelectual, porque nós lidamos com o tempo percebido e o filme lida com o tempo real. Então, estes dois veículos são totalmente diferentes. Quanto ao que eu acho de Walt Disney, não gosto de falar sobre mortos.
P: Devemos resistir um pouco mais a esta tecnologia que está chegando tão rápido?
Eisner: Bom, meu conselho é: não tentem resistir, porque isto é maior que vocês. A tecnologia vai ultrapassar vocês assim como preservará a escrita (imprensa). Há muito pouco o que possamos fazer sobre isto. O meu pedido é que preservemos a nossa integridade intelectual, nossa integridade artística, a base sobre a qual construímos nossas habilidades. Minha queixa é que geralmente tentamos preservar as habilidades manuais que aprendemos, a habilidade com um lápis, com um pincel, a tecnologia que aprendemos. E você sabe que esta não é a essência de nossa arte, não é o coração da nossa arte.

"Não tentem resistir, porque isto é maior que vocês. A tecnologia vai ultrapassar vocês assim como preservará a escrita."
P: O que você imagina que vai ser o futuro viável dos quadrinhos?
Eisner: Não há dúvida de que o quadrinho permanecerá. A habilidade de criar uma imagem permanecerá. Sei que os computadores agora têm milhares e milhares de imagens pré-programadas; que agora você pressiona uma tecla e cria uma imagem. Mas, a personalidade que existe, as características humanas que existem num desenho de Ziraldo ou num desenho meu, mesmo se desenharmos sobre a mesma coisa, permanecerão. Os cartunistas sobreviverão, enquanto o técnico, que era capaz de reproduzir um corpo perfeitamente, ou um desenho de uma casa perfeitamente, não sobreviverá à tecnologia. Ela tomará seu lugar. Mas eu não consigo visualizar a tecnologia tomando o lugar de um quadrinho do Ziraldo ou meu.
P: Até que ponto o senhor acha que o quadrinho pode influenciar a educação? Está havendo o empobrecimento dos quadrinhos como arte?
Eisner: O quadrinho tem o poder de ensinar numa velocidade incrível, principalmente por criar uma identidade visual com o leitor. É a diferença entre explicar a alguém como dar um laço no cadarço e demonstrar isto, mostrando como fazer. Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo me pediu para entrar para o exército e ajudá-lo na guerra. Então, fui para Washington e lancei a ideia de usar a técnica de quadrinhos, arte sequencial, como uma ferramenta, um mecanismo de treinamento. E se tornou um enorme e instantâneo sucesso. Isto me ensinou, naquela época, que este veículo tem um potencial enorme de ensino ao criar uma identidade com o leitor.
P: O que dá as cartas no quadrinho: texto ou imagem? Ou os dois?
Eisner: A relação entre texto e imagem é muito preciosa; é muito sofisticada e desafia as regras. Mas eles são essenciais um para o outro. Com muita frequência, no meu trabalho elimino ou removo o texto e uso só as imagens, sem texto. Mas o texto, o uso exato das palavras, é intrínseco à nossa arte. E, de fato, ele próprio, uma forma de arte. O estilo da escrita é intrínseco às possibilidades narrativas e ao potencial narrativo do próprio desenho animado. Profissionalmente, muitos cartunistas odeiam a legenda, o texto. Eles odeiam fazer isto e, geralmente, contratam alguém para fazer para eles. Acho que isto é um erro grave. Para aqueles que estão neste campo profissionalmente, eu diria que a regra que uso para texto é: nunca usar um texto que possa ser trocado por imagem. Portanto, como exemplo, eu não uso um texto narrativo para dizer que o herói levantou o braço e deu um soco na parede. Eu elimino o texto e mostro isto através de imagens. Preservo o texto para dois fins: um é para diálogo e o outro para mostrar a passagem do tempo, grandes espaços de tempo.
"A regra que uso para texto é: nunca usar um texto que possa ser trocado por imagem."
P: Há excesso de violência? Está havendo um empobrecimento dos quadrinhos como arte?
Eisner: No que se refere à violência, você deve entender que há milhões de leitores, que estão pagando uma grana para ver esta violência e que gostam disso. Não discuto isso. Acho que as pessoas que trabalham com imagens estão oferecendo o que eles acreditam que o leitor quer e está a fim de pagar. Agora, dizer que o empobrecimento é um sinal da desintegração, degradação do veículo, não sei. Tenho muita fé que haja na comunidade dos escritores muita gente com algo a dizer sem ser violência. Uma vez alguém disse, um grande escritor, um filósofo social, que 95% de toda arte e de toda música é lixo. E, talvez ele esteja certo. Mas, graças a Deus, pelos 5% restantes, as artes permanecem.
P: O senhor é um dos maiores artistas do século. Por que alguns autores de quadrinhos do tempo do senhor ficaram para trás?
Eisner: Bom, não sei se eles ficaram para trás. Vejo que muitos dos cartunistas que começaram comigo não acreditavam que o seu trabalho era de fato uma forma de arte. Sabe, sempre digo a meus alunos em Nova Iorque, que estamos produzindo obras de arte. Uma vez, me lembro, uma pessoa se levantou na plateia e me perguntou: "Senhor Eisner, o senhor pensa em fazer arte algum dia?". "Eu estou fazendo obra de arte", respondi. E acreditei desde o começo que iria dedicar toda a minha vida a esta forma de arte. Acreditava, verdadeira e apaixonadamente, que esta era realmente uma forma literária à qual valia a pena dedicar minha vida. Muitos outros artistas do studio, e outros colegas daquela época, acreditavam estar fazendo aquilo para ganhar o dinheiro suficiente para mudar para a parte de cima da cidade, para o mundo lá de cima, o que significava nos Estados Unidos mudar para a Avenida Madison, onde estavam as galerias. Eles estavam seduzidos pela ideia que há uma hierarquia das artes, que a pintura é o ponto máximo das artes e que o quadrinho é seu ponto mais baixo. O que eu não acredito. Portanto, dizer que estes caras ficaram para trás... Foi a escolha deles. Mas, obrigado pelo preâmbulo.
"Eu estou fazendo obra de arte... Acreditava, verdadeira e apaixonadamente, que esta era realmente uma forma literária à qual valia a pena dedicar minha vida."
P: Há algum projeto para levar o Spirit e o Dick Tracy para o cinema?
Eisner: A resposta é sim. Cedemos o direito do Spirit para uma companhia. Mas eu devo dizer-lhe que não ligo a mínima, não estou mesmo interessado em transformar o Spirit em filme, por várias razões. Primeiro, porque este não é meu veículo e não estou interessado em fazer cinema, em participar do filme. Se ele for bom, não vai aumentar meu status profissional aos olhos de meus colegas. Se for ruim, não o diminuirá. Portanto, não importa. Meus editores ficarão muito felizes porque significa que eles venderão mais cópias do Spirit. Mas, para mim, não significa nada. Só estipulei no contrato que eles não podem fazer certas coisas com o personagem. Mas, fora isso, francamente não me importo. Talvez eles chamem o Woody Allen para fazer o papel de Spirit, não sei.
Quando penso nisto, me deito até o sentimento ir embora. Ah, mas ele continua me perseguindo! Finalmente, no ano passado, eu disse: "Olha, eu vou dar a licença para fazer o Spirit, se concordar que só os melhores vão tentar fazê-lo". Eu esperava que não se achasse ninguém que quisesse fazê-lo. Mas, para minha surpresa, em duas semanas ele já tinha Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, Dave Gibbons. Então, concordei em dar licença para se fazer uma série com estas pessoas, deixando claro que não teria nada a ver com os scripts ou com o texto. Porque, antes de tudo, respeito estes homens. Quando conversei com Frank Miller, apenas disse: "Frank, por favor, não faça com o Spirit o que você fez com o Batman... Transformá-lo num viciado em drogas!". E ele concordou. O único controle que quero exercer é impedir que eles alterem a configuração do personagem. O Spirit que vocês vão ver, feito pelo Alan Moore, será Alan Moore puro, e não Eisner.
P: Fale mais sobre a relação entre cinema e quadrinho.
Eisner: Nosso tempo de reação, nosso tempo de leitura, nosso sentido de atenção são impactados pelos outros veículos que temos. O cinema influenciou o ritmo de leitura do público e me conscientizei disso bem cedo. E, assim como o político aprendeu a conter suas ideias em pequenos soundbites, tive que aprender a ajustar minha história ao ritmo no qual o leitor for recebê-la. Você verá em meu trabalho mais atual uma mudança na organização do painel, uma simplicidade de ritmo, diferente de como ele aparecia no Spirit. Meu trabalho se tornou mais simples, com os anos. Não gasto mais tanto tempo exibindo minhas habilidades com o pincel, com o tracejado ou com a arte-final. Estou mais preocupado em passar a mensagem o mais rapidamente possível, porque sei que a atenção do meu leitor não se fixa por muito tempo.
P: O que levou o senhor a ser um cartunista? Quais foram as suas influências principais?
Eisner: Meu pai era pintor, pintava cenários para palco. Ele veio de Viena para a América como imigrante. Em Viena, ele pintava o interior das igrejas, anjos, nuvens. E, quando veio para a América, ele pintava cenas de palco. Então, eu me iniciei bem cedo nas artes. Estava de fato interessado em me tornar um pintor. Estudei pintura na União dos Estudantes. Também era um leitor voraz e gostava de escrever.
Quando me dei conta da necessidade de material para revista de quadrinhos, fiz uma proposta para o editor da revista em que trabalhava, e que faliu depois de dois números. Eu disse para o editor que eu achava que teria um bom futuro e que tinha espaço para um material bom e novo. Eu estava muito ansioso para convencê-lo. Então, disse que arrumava o dinheiro. Era o fim da recessão, meu pai estava quebrado, eu era muito pobre. Tinha acabado de ganhar 15 dólares por uns desenhos comerciais e sabia que tinha um espaço para escritórios em Manhattan, num pequeno edifício que alugava espaços para jogadores. Tinha 15 dólares, o aluguel era de cinco dólares por mês, por três meses, então, ele concordou em alugar. A companhia se chamava Eisner & Iger, porque eu era o homem das finanças. O dinheiro tem poder, vocês sabem. O que chamávamos de escritório era uma salinha pequena, com uma carteira e uma prancheta. O editor disse que ia nos dar trabalho, mas, perguntou se tínhamos uma equipe de artistas. E eu disse que sim, que tínhamos cinco artistas. "Vocês não podem ter cinco artistas, vocês não têm dinheiro algum!", [disse o editor]. Eu respondi: "Bem, eu vou desenhar cinco tirinhas diferentes, em cinco estilos diferentes: uma com lápis, uma com pincel, e com cinco nomes diferentes". No primeiro mês, eu estava fazendo cinco quadrinhos diferentes, com nomes diferentes: um com meu nome de trás para frente, Willis Pensie, um com o nome de W. Morgan Thomas e havia outro nome que eu usava, Spencer Stel. Então, passamos o primeiro [mês].
P: Quais foram as suas principais influências?
Eisner: Minhas influências criativas foram três pessoas: Milton Caniff, George Herriman, que fez Krazy Kat, e Segar, que fez o Popeye. Milton Caniff me ensinou a escrever histórias e a criar as imagens que combinam com elas. Segar me ensinou como fazer humor num espaço muito restrito. Se você se lembrar, o Popeye não voava por aí. Ele transmitia a ideia de uma tremenda quantidade de ação com muito pouco movimento. E Herriman me ensinou a criar o que chamo de um contrato com o leitor, no qual eu o forço a participar da narrativa ao deixar grandes espaços ou lacunas entre as imagens. Estes foram os três mais importantes. E, é claro, nós somos sempre influenciados, nenhum de nós anda só. Nós estamos sempre nos apoiando no ombro de alguém. Meu período de aprendizado mais fértil foi sempre nos anos em que estava lecionando. Eu aprendi muito ensinando.

P: Já surgiu alguém da revista Mad querendo que você publicasse nela? Qual a sua opinião sobre esta revista?
Eisner: Opa! Opa! Não sei. Participar da revista Mad é meio como, vamos dizer, Woody Allen representando Shakespeare. Não me vejo escrevendo para a revista Mad. Ela é muito bem-sucedida, uma revista muito boa, foi iniciada por um amigo muito querido, Harvey Kurtzman, e é destinada a um segmento muito especial de leitores. Aquele leitor jovem, que se considera muito sofisticado. Eu tenho um público para quem escrevo: meu leitor geralmente é um homem de 45, 50 anos, que acabou de ter sua pasta roubada no metrô. Acho que ele compreende o que estou falando. Eu não posso falar de ataque cardíaco com uma criança de 12, 13 anos.
P: O senhor acha que os quadrinhos americanos estão em decadência, que os europeus e os japoneses estão tomando a frente?
Eisner: Não há decadência nos quadrinhos americanos. Os quadrinhos são um veículo universal. Portanto, a comunidade dos cartunistas é muito próxima. Estamos muito ligados uns aos outros. Cada país reage de acordo com sua herança cultural. Os quadrinhos japoneses refletem uma longa história cultural que aprendeu a ler com imagens. Chamo a atenção para a língua japonesa, [que] são imagens, é pictográfica. Então, o povo japonês está acostumado a este tipo de imagens. A sociedade japonesa é diferente da brasileira, da americana ou da francesa. E estes cartunistas dão respostas aos ritmos e à moral da cultura em que vivem.
(Reprodução autorizada pela Prefeitura de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Cultura, desde que citada a fonte)
