Pequenas Histórias de Guerras - Amélia

O cheiro do café e a abertura gradual das persianas forçaram Amélia a abrir os olhos. Estava ainda cansada para espreguiçar. De certo modo a cama confortável que ela havia adquirido no ano passado contribuiu para sua sensação de não querer levantar.
Uma música suave começava a aumentar o volume. Como conhecia a si mesma de longa data sabia que precisava criar essas armadilhas para conseguir levantar. Se colocou primeiro sentada na beirada da cama. Havia dormido com uma camisa da banda Black Sabbath. O vinho da noite anterior fizera nela um efeito muito pior do que ela havia planejado.
— Acordei.
A música imediatamente parou e um noticiário começou a tocar. A voz da apresentadora era conhecida. Não devia ter saído no dia anterior. Precisava economizar para o aluguel e as contas que inevitavelmente viriam. Seu cabelo precisava ser lavado. Tomou o café. O aparelho celular piscava de tempos em tempos. Mensagens silenciadas. Não pode deixar de sorrir ao pensar em quantas pessoas havia deixado no vácuo.
A caneca ficou cheia pela metade, enquanto se livrava das roupas e se dirigia ao banheiro. Nos seus um metro e sessenta e sete ela se sentia confortável. O chuveiro havia detectado sua presença e a água caia a exatos 27 graus.
A correspondência digital havia sido filtrada. Com uma única exceção. Não reconheceu o remetente. Não era uma mensagem clara, mas uma imagem. Uma runa se não se enganara. Ela a reconheceu. Tentou filtrar quem havia enviado a msg. O remetente constava como desconhecido. Pulou para as mensagens do celular e tentou esquecer isso, mesmo que na sua mente a imagem encontrasse um cantinho para ficar escondida.
Assim que ficou pronta pediu um carro e desceu. O trânsito era mais leve nas terças feiras. Desde a queda católica muitas empresas passaram a ignorar os domingos como dia de descanso e a opção de muitas foi justamente a terça-feira. Por isso talvez ela estivesse nesse sentimento de jetlag. Era um carro azul, automático e elétrico. Ou devia ser. Um homem vestido socialmente lhe sorriu quando entrou na porta dos passageiros.
— Bom dia.
— Bom dia. Achei que eu tinha pedido um carro automático.
— Estranho não? Quer que eu cancele e você peça outro?
Ela preferia carros automáticos, mas deixou para lá. Estava dentro do prazo para a reunião com o eventual cliente. Ela fez um gesto com a mão de negativo e o motorista seguiu em frente.
Distraída lendo notícias percebeu que não tinha ido para onde devia quando o motorista sorriu e disse que haviam chegado.
— Onde diabos você me trouxe?
— Onde você pediu.
— Não. Eu não pedi esse local estranho.
— Tem certeza?
Amélia estava irritada e abriu o aplicativo. O endereço não era o seu habitual. Na realidade ela estava exatamente onde o sistema dizia que ela pediu para estar. Que coisa irritante. Tentou pedir uma mudança. O sistema travava. O sinal devia estar ruim.
— Aqui, o aplicativo está dando um bug senhor. Pode me levar para o endereço que eu tinha que ir?
— O problema é que já tenho outra corrida.
Amélia pensou em reclamar, mas como tudo era interligado não ia conseguir muita coisa.
— Vou ver se tem um local com sinal melhor. Obrigada.
— Por nada.
Desceu do carro e olhou ao redor. Ela não estava preocupada no conforto do seu carro. Seu carro era obviamente um modo de dizer. Agora parada em frente ao velho teatro no bairro que ela devia saber o nome e não se lembrava tentava digitar no aplicativo enquanto olhava de soslaio para os lados. Andou um quarteirão e entrou numa padaria de conveniência. Eram muito comuns na periferia. Uma adolescente sorriu assim que ela entrou.
— Que bom que veio. Aqui está. Aproveite que ainda está quente.
— Está me confundindo com alguém jovem?
A moça ficou um pouco incomodada.
— Não. Amélia, não é?
— Sim.
— Deixa só eu dar baixa no pedido.
Dito isso a escaneou rapidamente e o celular de Amélia acusou o recebimento do pacote. Um pacote comum, marrom de padaria. Com uma runa impressa nele. A mesma runa que havia encontrado mais cedo.
— O sinal está ruim aqui.
— Ele sempre é ruim aqui. Também não adianta muito, os motoristas não gostam de vir para esse lado e os “toumáticos” não vem mesmo. Risco de roubo grande.
— Que sorte a minha.
Havia uma mesinha desgastada e ela se sentua e abriu o pacote. Continha um salgado num formato estranho e um bilhetinho com a runa novamente.
— Aqui, exatamente o que é isso?
— Ah, é um Touteiro. Saí pouco, mas é muito bom me disseram.
— Nunca comeu um?
— Não. São caros. Prefiro os pastéis.
Amélia também preferia os pastéis. Mas na dúvida deu uma pequena mordida no Touteiro. Era salgado e um pouco apimentado. Mas era bom. Tinha queijo? Ficou na dúvida. Ela tentou novamente no aplicativo enquanto comia e nada mudava. Se distraiu e subitamente notou que a garota não estava ali. Em compensação na sua frente vestido como um mendigo dos tempos antigos estava um homem que sorria para ela. Normalmente a sua parte de terror social seria acionada imediatamente. Mas ela o olhou com curiosidade e tranquilidade.
— Olá Amélia.
— Eu te conheço?
— Claro. Fomos colegas de quarto durante a quarta e quinta campanhas.
— Colega de quarto? Desculpe eu não sei do que você está falando.
Ele sorriu e apontou para o Touteiro, já quase completamente devorado.
— O seu tempo de descanso acabou. Daqui a pouco você vai começar a lembrar.
— Lembrar?
— Sim. Você não vai saber do procedimento enquanto não estiver completamente aqui no mundo nosso.
— Pode me explicar melhor?
— Estamos combatendo há seis décadas os bichinhos de goiaba.
— Bichinhos de goiaba?
— Sim. O nome é bonitinho, mas eles não são bonitinhos. Mas sabem se disfarçar bem. Sabe, igual bichinhos de goiaba. Você acaba comendo um ou outro quando não está prestando a atenção e como eles tem gosto de goiaba, fica tudo na mesma.
— Isso parece totalmente bizarro.
— E é. Mas depois da última campanha você precisava de um tempo de descanso então sua memória era suprimida e você podia descansar como uma civil.
— Uma civil desempregada e surtando? Não me parece um tipo de descanso apropriado.
— Ah, é porque você ainda não se recorda. Quando recordar vai ser mais interessante e você vai ter saudades desse tempo de ócio e coisas que fazem tudo por você.
— Oi?
— Sim. Nós não usamos tecnologia. Os bichinhos de goiaba são muito melhores que nós nessa parte e isso não ajuda muito. Temos claro informações segmentadas, mas no nosso caso somos muito bons em criar armadilhas para eles.
Amélia devia estar surtando, o que a fazia não surtar era imaginar qual tipo de droga tinha naquele salgado que ela comera.
— Artur isso não faz o menor sentido.
Subitamente ela viu no sorriso do rosto do mendigo. Como ela poderia saber que o nome dele era Artur?
— Está começando a fazer efeito. Isso é bom.
— Ok, eu deveria estar assustada.
— Se nem a travessia do Prata te assustou, quem dera um retorno a ativa.
— Eu sou uma espiã?
Artur riu.
— Claro que não. Andou vendo filmes demais na sua vida civil.
— E o que eu sou exatamente então?
— Uma combatente. Como eu. Mas somos dois níveis acima da infantaria. Temos nosso próprio técnico de inteligência.
— Que seria?
— O Cabeça de Abóbora.
Amélia se levantou e abriu a geladeira. Precisava de uma cerveja. Era muita loucura para se ouvir sóbria.
— Não seria melhor você se lembrar antes de se embriagar não?
— Não.
Artur sorriu de novo. Era exatamente essa a resposta que ele esperaria de sua companheira de combate.
Amélia estava desperta. Se viu no espelho como não se via há muito tempo. O cabelo estava escovado e comprido. Tinha sido um período bom, mas os BG não davam trégua.
— Me atualize.
— Os BG tomaram Paris.
— Paris?
— Sim.
— Porra, mas Paris é central.
— Podia ser Moscou ou Copenhague.
— Preferia Copenhague.
Artur ficou de pé e Amélia percebeu que ele estava sem uma perna.
— O que diabos aconteceu?
— Você não iria acreditar. Pisei num bum grande na batalha de Minhoca.
— Houve uma batalha em Minhoca.
— Houve. E apesar da minha pouca sorte, vencemos.
— Ok, ganhamos Minhoca e perdemos Paris. E você ainda virou perneta.
— O mesmo otimismo dos velhos tempos.
— Não gosto de tempos, nem velhos nem novos. Qual é a missão?
— Precisamos embarcar para Dublin. Há um núcleo BG que está colaborando conosco lá.
Amélia franziu a testa. Colaboradores eram perigosos. E Dublin nessa época era uma droga.
— A informação é firme?
— Cabeça de Abóbora.
Ela viu o Cabeça de Abóbora na memória. Um guri com cabelo pintado de vermelho e tom negro na pele. Era gente boa, mas melhor não saber o nome dele. Para a segurança de todos.
— Onde está Minina?
— Onde você a deixou. Com saudade?
— Não sei como conseguia dormir como civil sem ela.
— É por isso que tiramos as memórias. Se não você não descansava.
— Quem vem nos buscar?
— Hermes. Mas podemos beber agora e celebrar sua volta à frente de batalha.
— Vamos. Enquanto isso, me atualize.
Artur sorriu calmamente.
— Não vai colocar seu bracelete?
Amélia colocou a mão abaixo da mesa e tirou um adesivo de roupa. Nele a insígnia com a runa que a perseguira.
— Vocês estão ficando muito sutis para me lembrar.
— Coisas do andar de cima.
Ela olhou novamente no espelho. A primeira coisa que iria fazer quando pegasse Minina era cortar aquele cabelo horroroso. Numa briga era a certeza de que iria ser morta. Abriu a geladeira e pegou outra cerveja.
Belo Horizonte, 08 de janeiro de 2026
