Carros, Crônicas e Bailes (versão 2026)

Você se assustaria com as minhas histórias pois elas são todas voltadas para o baile.
Sim, o baile da vida. Esse lugar que estamos não diverge de um grande salão onde convidados e anfitriões alternam seus papéis todos os dias e todas as horas.
Havia o motorista de carro e essa será a sua história, até que eu diga que não é.
Aprendeu a dirigir pelo gosto de andar mais rápido que os outros. Trabalhou duro e comprou seu acesso nessa era louca a um lugar nas principais estradas do estado, da cidade e do país, apesar que a última foi mais um bate e volta numa capital com praia.
Defendo sua liberdade de ter um carro e dirigir.
Mas me assustou um pouco quando comecei a perceber que era o carro que o dirigia. Sim, é uma conclusão muito brutal, mas ela me atingiu de forma inexorável.
Ele se alimentava dentro do carro. Quando começou a trabalhar com o carro, o cronômetro do baile mostrava que a cada dia ele ficava mais tempo dentro do carro. Para pagar uma prestação, para comprar uma televisão, para pagar a gasolina, cada dia mais cara.
Seu tom mudava à medida que mudava também seu carro. Me preocupei quando comprou numa urgência um carro verde limão e comecei a perceber pequenas nuances dessa cor em suas roupas, em seus olhos.
Mas resolvemos tudo quando optou pelo carro negro que utiliza hoje.
Deixou o cabelo crescer sem alisar. Ouvia música condizente com a sua situação.
Outros convidados comentaram sobre seus hábitos noturnos, em periferias, em bate e volta bem conhecidos.
Não tolerava aquele tempo fora do carro. Dentro ele tinha seu próprio ritmo. E nesse ritmo mudava modelo, mudava frota, mas sua perspectiva continuava a mesma. O carro, a entidade carro, o controlava.
Morreu um dia que o carro numa crise de asma o deixou na mão numa curva e ele bailou para fora do parabrisa vindo a falecer fora do seu ambiente natural. Agora essa não é mais a história do motorista. Talvez tenha se tornado a história do Carro do Motorista. Vai se saber….
Belo Horizonte, 17 de janeiro de 2026
