1)Sapatarias, 2)farmácias e… 3) CPF na nota?

Sapatarias, farmácias e… cpf´s
Belo Horizonte comemorou seu centenário com o orgulho que merecia a capital das montanhas. As celebrações envolveram a cidade num clima cultural que desafiava o mais descrente de nós. As publicações, os eventos independentes, as articulações de zona norte a zona leste pulsavam. Naquela época as Sapatarias, as bancas de revista ocupavam outro lugar no imaginário criativo.
Era a capital de Eisner, Serpieri, Ota, Angeli, Laerte… Inauguramos a recém reformada Serraria Souza Pinto com a última Bienal de Quadrinhos que Belo Horizonte viria, e que daria vida a um filho meio bastardo, o Festival Internacional de Quadrinhos - FIQ.
Era início dos anos 2000. Na onda ainda vívida do centenário da capital, começamos a receber e reunir pessoas para pensar alternativas mais organizadas para a produção de quadrinhos. Eu havia me aventurado na criação de uma editora e distribuidora, a Zoop, que teve seus momentos, mas não teve a vida longeva que prometia. Ainda tínhamos nas bancas de revista pontos de venda de revistas, jornais e outros produtos literários.
E chegavam ideias vindas do Rio, São Paulo e Curitiba. Vinham de Viação Cometa (mesmo a gente avisando que era preferível a Gontijo naquela época).
Tínhamos também as redações físicas dos jornais, com seus departamentos de arte, uma espécie de credencial para nós que de forma independente publicamos e aproveitamos cada oportunidade para divulgar. Inclusive uma visita às redações e seus mestres, que nos apresentavam prestativos jornalistas.
Naquele tempo, em que as redações de jornais cumpriam a tradição se SEREM de fato redações, tínhamos uma realidade diferente aos que aqui chegaram vindos de outros lugares. Belo Horizonte parecia ser a capital das sapatarias.
A cada esquina que se passava uma disputava com a outra a poucos metros.
Não passou despercebido nos comentários dos ilustres visitantes.
Passados mais de duas décadas, a maioria das bancas de jornais, vende de tudo, exceto na maioria dos casos, jornais…
As sapatarias entraram em colapso e hoje é difícil encontrar uma ou outra nos quarteirões da área central.
Por outro lado, a nossa cidade se tornou a cidade das farmácias, não mais das sapatarias.
Basta virar uma esquina e você vai encontrar as drogarias, hiper, super, extra populares em seus anúncios.
Vai comprar um antiácido? Um é R$2,00 três é R$5,00. Nas notas fiscais de qualquer medicamento a informação de que você economizou mais de 160 reais com aquela compra.
Quando a liquidação é de remédios, qualquer um sabe que algo está errado. A individualidade da cidade precisa, neste momento, de um omeprazol (um é R$12, dois saí por R$ 20,00). 128 anos e um dois dias de vida tem a capital.
Eu vivi essa mudança quando comprei meu último par de 752 da Vulcabrás, antes de ser descontinuado. Sapato feito para durar, feito para andar de banca em banca, colhendo alguns reais aqui e outros ali. A cidade centenária vai caminhando para uma idade na qual as bancas não são bem vindas e nem nossas aventuras editoriais.
Eu resisto nos bares que frequento há mais de duas décadas, imaginando se, as farmácias, que viraram nossa versão moderna de mercearia, onde se comprar de tudo um pouco, ou mesmo as bancas de revista não deveriam começar a vender sapatos, para que a história pudesse ter um final mais interessante. Imagine só entrar numa farmácia e sair com um extinto 752 da vulcabrás, ou comprar um pacote de jornais para pet e o saudoso jornaleiro perguntar se vou querer colocar cpf na nota.
E continuo flanando em Belo Horizonte, a capital dos bares, que já foi capital das sapatarias e que caminha para ser também a capital das farmácias e drogarias.
