Pretoriano

Pretoriano Cap 1
01

Os Pães murcham mais cedo na época da chuva.

Quando terminou a guerra meu pai me disse: mantenha a honra. Isso foi dito de forma civilizada, enquanto ele fugia pela porta dos fundos da minha residência, no 14º andar. Não sou grande coisa, e duvido que meu pai se orgulharia de mim. Também não me orgulhei dele espalhado como tinta no asfalto, sendo coletado com uma colher.

Tenho menos altura do que deveria ter, não tenho certeza de nada de bom, recebe pouco e de noite fico pensando em como seria morar em uma casa de verdade e não num maldito apartamento do centro. À noite, no plantão de sábado, sou cortês com os homens da lei e sempre dou o desconto padrão. Vez por outra, Cid aceita sair comigo.

Mas felicidade não é coisa desse mundo mesmo. Não dá para imaginar uma terra feliz hoje em dia. Não quando se olha pela janela e vê a cor do céu.

"A gente devia ter herdado um céu mais bonito."

Trabalho oito horas num Outyr. É uma mistura de padaria, lanchonete e bar. Não sei quando passamos a nos denominar assim, mas não podemos mais nos chamar apenas de padaria. Atendo pessoas de dia. Nas noites, principalmente às quintas-feiras, eu atendo mesas à noite. São apenas oito e o movimento sempre é pequeno. Vendemos todo o tipo de bebida legal. Guardamos um pouco da verdadeira para os dias de Ano Novo e Natal, apenas para deixar em todos a expectativa de que e uma época especial está por vir.

Não tenho uma profissão invejável. Mas no fundo não tenho uma vida infernal. Pelos menos, tenho apenas uma vida. Tento fazê-la valer a pena.

Do meu balcão prateado, suspenso no ar, com um pequeno monitor acompanho os pedidos. Anos atrás nossos clientes dariam gorjetas. Hoje não. Hoje tudo o que podemos fazer é rezar que seus programas de diálogo estejam desligados e que eles não se atrevam a nos interromper com seus papos longos justo na hora de fechar. É o máximo que podem fazer por nós. E isso é tudo.

Seu nome era Alfredo. Hoje acho que era um nome falso, mas ele se sentava no mesmo lugar há pelo menos dois anos. Dois anos pelo que eu passei a reparar nele. Sempre havia uma música ambiente mais calma para ele. As garçonetes faziam piadas sobre o velho e sua trilha sonora. Quando os homens da lei fazem suas batidas tradicionais, eles simplesmente esqueciam que ele existia. E ele continuava a beber.

Um dia ele me deu uma gorjeta e eu perguntei como deveria chamá-lo. Foi quando ele disse que seu nome era Alfredo. Sua voz saiu rouca e forte.

Não sou um cara alto, mas também não sou tão baixo que não pudesse me alistar, mas muito menos do que gostaria quando pensei em servir de companheiro para a senhorita meu-coração-partido alguns anos atrás. Vieram muitas senhoritas meu-coração-partido depois, e hoje eu sei que não tinha nada a ver com a altura, mas com outras coisas um pouco mais complicadas.

O homem sentado na mesa, Alfredo, devia ser alguém importante. Porque todo mundo o ignorava. E ele permanecia. Permanecer nos tempos de hoje, existir aqui sem ser notado pode, e deve, ser considerado como um grande dom. Ele tinha muitas qualidades engraçadas. Não pagava como todos, debitando créditos, tinha que pagar em notas antigas. Não aceitávamos isso de mais ninguém, mas o gerente nos obrigou a não questionar. A lei nos obrigava a ser corteses, e nós seríamos. Era um homem de idade avançada e que se vestia sempre da mesma forma. Tinha um ar meio aristocrata, e não prestava atenção ao seu redor. Também não carregava um conector, como todo mundo. Era um homem desligado. Provavelmente sua aposentadoria não lhe permitia manter um.

Foi na quinta-feira que as coisas aconteceram. Eu estava de plantão sozinho, com apenas Alfredo como cliente. Eu o estava atendendo quando o Sargento M entrou.

— Acho que vou prendê-lo hoje, rapaz.

Olhei assustado para ele.

— Brincadeira. O de sempre.

Terminei de servir o HYT para o velho e fiquei tremendo enquanto o sargento fazia piada sobre os Genéticos Treze, uma colônia estranha que aparentemente estava se formando no Setor Oito. Agora tudo e todos eram números.

— Você poderia se alistar, garoto. Ficaria bem de azul.

— Acho que não gosto muito de azul, senhor...

As palavras saíram inconscientemente e eu vi a besteira que tinha dito nos olhos daqueles homens.

— Por acaso é um dissidente?

— Eu? Sou padeiro, Sr. Não discuto política. Não sou um militante. Não sou nada.

— Então devia tomar cuidado com sua língua. Dê um capuz para ele. Vai usá-lo de agora em diante, ou será preso.

O soldado pediu um capuz azul e me pediu para vesti-lo.

— Sr., posso perder o emprego.

— Dane-se. Não gostamos que zombem de nosso uniforme.

— Mas...

Não precisava ser muito esperto para saber que aquilo era encrenca. Foi quando tentaram me colocar aquele capuz horrível que Alfredo se levantou e colocou a mão no braço do soldado.

— O que quer, velho?

— Deixe o menino. Ele não precisa lhe provar nada. Ele é um nada. Deixe-O. Satisfaça seu ego chutando um ytes ou qualquer outro.

As coisa podiam esquentar e desde então eu pensei muito a respeito dos segundos que se seguiram. O homem era um desconectado, com um braço velho e forte segurando um agente da lei, um Homem de Azul. E ele simplesmente o soltou, com uma cara de horror.

— Desculpe. Estávamos apenas conversando.

— Conversar demais cansa a língua. Sente-se. Ou vá embora. Deixe meu atendiere em paz.

O Homem de Azul não respondeu nada. Apenas se dirigiu para a porta. Depois de me olhar eu sabia que tinha me metido em encrenca grande mesmo.

Alfredo não conversava muito, provavelmente por ser um off-line, um desconectado. Esse tipo de gente é meio antissocial. Me chamou e depois desligou o visor de sua mesa. Eu ainda devia estar tremendo, ou meio azul. No momento achei que havia perdido o emprego. Agora posso ver que eu estava sendo otimista.

— Gosta dessa vida, garoto?

— Gosto, Sr.

— Então é melhor parar de gostar. Eles vão voltar e eu não vou poder estar aqui. Agora já sabem que eu existo de novo. Você não pode ir para casa. Vão segui-lo. Acho que você acabou de se tornar uma celebridade, garoto.

— Não quero ser uma celebridade, sr. Quero vender meus pães e viver.

— Então é melhor comprar um perfume de pão francês. Encontraram algo que não estavam procurando. Estão assustados, mas isso não vai durar para sempre.

Os Homens de Azul faziam um barulho especial com os pés quando queriam. Era um barulho que se ouvia a distância. Esse barulho começou devagar.

— Traga-me um guardanapo, garoto. Acredita em Deus? Ore. Acredita no Diabo? Ore. Não acredita em nada? Ore.

— E o que o sr vai fazer com um guardanapo?

— Limpar a boca desse HYT horrível que vc me serviu. Depois vou pensar em como você pode escapar.

A cozinha do Outyr era pequena e tinha apenas um monitor interligado ao centro de atendimento da central Outyr, nosso sindicato patronal. Nunca me habilitara a mexer no terminal. Agora um cliente velho mexia no teclado a uma boa velocidade, e fazia isso enquanto reclamava de meu HYT. Eu podia perder o emprego se o chefe assistisse à gravação da noite, mas acho que o medo não me deixava pensar no que estava acontecendo. Ele desconectou da parede o terminal. As coisas estão se complicando, pensei. Havia um zumbido no ar, um zumbido ruim. Muitas vezes mais alto do que uma blitz comum de quando eu ainda frequentava festas clandestinas.

— O.k., garoto. Vê isso?

Era um compartimento 89, uma forma antiga de armazenar dados de texto.

— Bem, a história é longa, mas eu sei que desta vez me danei. Devia ter ficado quieto. Mas ainda tenho um pouco de sangue para derramar antes de tudo acabar.

— Senhor, eu posso pedir desculpas ao...

— Isto está un pouco além de sua compreensão, garoto. Este C-89 contém o que nós chamamos de elixir da longa vida. Estou escrevendo neste cartão o nome da pessoa que você deve procurar quando sair daqui, dentro de 15 minutos. Vou mostrá-lo de forma que nenhuma câmera possa vê-lo. Não diga o que está lendo em voz alta.

Ele ergueu o pequeno cartão bem próximo dos meus olhos. Depois o rasgou, o mastigou, e em seguida o engoliu.

— Por que você fez isso?

— Não estou reclamando. O gosto é melhor do que o de seu HYT. Vamos agora ao que interessa. Esse C89 é seu agora. Ele provavelmente vai tirar esse cheiro de pão francês de você. Agora acredite em mim: eles o matarão se o pegarem. Dê o fora assim que for possível. Estou morrendo mesmo, tenho apenas dias de vida. Acho que os trocarei pelos próximos dois minutos.

— Deus, acho que vc é louco.

Ele me olhou. Percebi que aqueles não eram olhos de louco. Ele reconectou o terminal e inseriu o C89.

— Acredite em mim, garoto, não desgrude desse brinquedo depois que eu partir. Lembre-se que isso aqui agora será seu anjo da guarda.

Velho: Olá
Terminal: Estive muito tempo longe. Não consigo recuperar dados.
Velho: Não se preocupe, o garoto o guiará.
Terminal: E os outros?
Velho: Acho que já se foram, velho amigo.
Terminal: Entendo. Eu também não deveria estar aqui, deveria?
Velho: No, mas não quero morrer na prisão, e já não tenho como fugir. Preciso de você de novo.
Terminal: Sempre estamos prontos. Este é o mundo melhor que planejamos?
Velho: Dificilmente. Este garoto, consegue vê-lo?
Terminal: Sim.
Velho: Ele é o novo HD3. Proteja-o.
Terminal: Estão entrando.

— Uma pena. Achei que com o avanço da tecnologia poderia beber com vc um dia desses...

— Atenção, garoto, fique aqui. Quando as portas se abrirem, obedeça o terminal. Tome, esta é sua lâmpada de Aladim. Seu nome é Pretorius. Pode chamá-lo de Pretoriano, ele prefere.

Neste instante o Sargento M entrou dentro do Outyr com suas armas digitais engatilhadas e uns cinco soldados. Todos sorrindo.

— HD3, você está preso. Saia.

Alfredo saiu calmamente e ficou frente a ele. Deixou o casaco cair no chão e mostrou que estava desarmado.

— Estou impressionado. Quando me tocou, meus terminais o reconheceram imediatamente. Porque diabos não se matou, homem? Poupar-nos-ia tempo nos tribunais.

— Gosto de você. Deixarei vc vivo.

— Isso não é uma história de artes marciais. Estamos no mundo tecnológico. Aqui as pessoas não voam pelos ares e chutam armas. Aqui elas são presas, quando for nossa prerrogativa.

— Por que este homem está sendo preso, Sr?

Alfredo me olhou de soslaio.

— Ele? Você também está preso. Principalmente você. Principalmente vc. HD3 é acusado de 36 atos terroristas, de 730 invasões digitais, em seu nome e de seu grupo. Achei que o último Homem Digital estava morto há pelo menos 3 anos.

— Somos uma raça em extinção.

— São uma praga. Gostei da conversa. Vamos, prendam todos.

— A propósito: ELE está aqui, sargento.

— ELE? Acha que eu acredito nesses boatos idiotas. Prendam-no.

Alfredo dá um estalo de dedos e as luzes tremem.

— Ele está aqui, sargento. Suas armas estão travadas, a menos que nos dê livre acesso explodirei dois de seus homens.

— Homem, posso matá-lo.

Um estalo de dedos. Duas armas explodem e dois homens caem em chamas. O Sargento tenta disparar mas sua arma não funciona.

— Maldições!!!

— Velho eu estou, é bem verdade, mas o imortal ainda está aqui e ele me protege. E protege o garoto.

— De nós pode ser. Mas não vamos dar trégua. Vocês não sairão daqui. Os homens de azul montarão guarda até que você se entregue.

— Não acontecerá.

Os homens de azul saem. O velho se senta.

— Eles estão lá fora.

— Deve sair daqui a pouco. Eu vou distraí-los. Eles estão com armas antigas sendo trazidas. Ele confundiu os rádios, os radares, mas a Inteligência Azul está vindo para cá. Suas armas modernas não servirão de nada.

— No que diabos eu me meti?

— Ele está de volta, garoto. Agora eles temerão você como temiam a mim. Vamos, coma um pedaço, vc provavelmente ficará com fome quando estiver correndo.

— Isso é uma piada de péssimo gosto.

— A experiência era interessante. Mas ficou fora de controle. Os Homens Digitais existem há muitos anos e ninguém pode, ou deve saber. Agora é por sua conta e de Pretorius.

— Quem é ele?

— Letras, códigos de computador. Se você abrir seu C89 vai encontrar aproximadamente 5000 páginas de código digital. Uma forma primitiva mas eficiente de criar o que nós chamamos de Homem Digital, uma presença falsa que transita pela rede e realiza coisas.

— Realiza?

— Hoje se faz tudo pela Rede. Lembra do assassinato do Rabino Alter T, doze anos atrás? — Que desencadeou a guerra dos 23 dias.

— Ele não foi morto. Apenas um dos Homens Digitais transmitiu as imagens geradas dele sendo morto para o mundo todo. Então o mataram de verdade achando que ele era um impostor. E tivemos uma guerra onde 8.000 pessoas morreram.

— Mas como eles fazem isso, que diabos são eles?

— Cérebros traduzidos. Complexos demais. O homem que os criou está em prisão perpétua. São anarquistas por natureza.

— Deus. E agora como você vai escapar?

— Eu? Eu não quero escapar. Estou morrendo, garoto. Há anos estou morrendo. Vi meus amigos serem presos, isso me impediu de utilizá-lo. Agora, entretanto, acho que vc pode fazer um bom proveito disso. Ou então pode passar o resto da vida na cadeia. Quanto a mim, estou meio cansado.

— Senhor, tem gente lá fora que está querendo nos matar. Essas pessoas são a lei e a ordem. Eles querem prendê-lo? É um criminoso?

— Sim, sou um criminoso. Mas não do tipo comum. Sou um anarquista.

— Brincou! O que eles querem com um anarquista?

— Esta — ele mostra o C89 — é sua lâmpada de Aladim. Há um gênio dentro dela. Peça a ele para que as armas digitais deles parem, elas param. Peça a ele que chova no setor trinta e oito, choverá. Ele é um cérebro eletrônico, digitalmente disperso pela rede, esse código o monta como um mapa de quebra cabeça.

— Desculpe, não entendo isso.

— Não se preocupe. Ninguém entende. As coisas acontecem da forma que têm de acontecer. Somente isso.

— Agora, preste atenção: quando eu me for, você foge. Isso é claro para você?

— Sim.

— Ótimo. Poderia me fazer uma ligação para a Ciud U Ter?

— Eu?

O telefone começa a tocar.

— No. Ele nos escuta através do sistema de monitoramento. Hoje é fácil ler as mentes das pessoas.

— Brincou.

Telefone:

— Sou eu. Problemas? Acho que estou partindo. O médico não havia lhe dado um mês? Cansei de esperar. Tenho um amigo novo. A lâmpada está com ele. Alguém que eu conheça? Não. Eu também não o conheço. Mas parece ser do nosso tipo. Deus, mais um estúpido! Um beijo, querida. Outro. A gente se fala noutro mundo.

Lá Fora:

— Por que diabos não chegaram os reforços ainda?

— Ele confundiu nosso sistema de comunicações. O maldito está solto, senhor. Achei que ninguém ia ser idiota de soltar um deles pelo mundo de novo.

— Alguém da Planet You já sabe disso?

— Graças a Deus, não. Eles vão tentar escapar, senhor. Precisamos entrar rápido.

— O maldito controla o complexo.

— Azar. Precisamos de tempo, e isso não temos. Quando a cavalaria chegar mande avisar que nós estamos lá dentro, matando um velho e uma criança.

— O fantasma não deixará, senhor. Acho que é Pretorius.

Um oficial se aproxima com uma tela na mão.

— Chamada, senhor.

— Quem?

— O Fantasma.

O terminal exibia um código de tabela periódica e a voz que saía era suave.

— O garoto está saindo. Se encostarem nele, eu estouro duas bombas em seu quartel general.

— Achei que vocês haviam sido delatados.

— A contagem é de um minuto.

A tela se apaga.

— O maldito agora me ameaça.

Lá dentro:

— O.k., garoto, obrigado pelo HYT. Agora precisamos que saia correndo. Sabe quem procurar, não sabe?

— Sim.

— Ótimo. Eu prometi a Pretorius que um dia beberia uma cerveja de verdade com ele. Se conseguir viver, faça isso por mim.

Eu o olhei com cara de incredibilidade.

— Vou entender seu silêncio como um acordo. Pretorius, adoraria que chovesse após a minha morte. Lavar o velho.

(Uma bomba entra pela janela estilhaçando e enchendo o ambiente de gás. Um exaustor da cozinha é automaticamente acionado. O ar fica limpo.)

— Boa sorte, HD3.

— Mas...

— CORRA!!!!

Os homens entraram atirando com armas convencionais. Os pés se alternaram com o coração na boca, e portas que se abriam e fechavam, e atravessou as portas e chegou na rua. No mesmo instante os soldados foram distraídos pela explosão de um transformador elétrico. Corra. Seu coração pedia isso. Ao longe tiros e mais tiros.

Lá dentro os homens de fora:

— O velho está morto.

— Eu sei. Se matou, o maldito. E o garoto, estão perseguindo, mas os sensores não estão funcionando corretamente. Precisamos de uma vacina contra esse maldito programa.

"Não sou um programa. Sou uma ideia."

— Ele ainda está nos monitorando. Desligue a energia desse lugar e destrua os geradores. Ganharemos tempo.

— E o garoto, senhor?

— Ele tem um brinquedo bom nas mãos. Mas não sabe brincar. Temos que pegá-lo antes que ele aprenda. Lá fora a chuva começa a cair como um réquiem.

Aquarela Capítulo 2
02

Longe, Perto, Distante, Adiante

São oito horas da manhã e nossa cidade está calma.
São oito horas e o mundo respira tranquilo e feliz.
São oito horas e eu me dou conta que estou com fome.

Do alto a cidade deve ser bonita e cheirar estranho. De baixo é caótica. Estou molhado e com medo. O céu está muito estranho hoje. Anunciaram que a chuva foi um acidente do pessoal do tempo. Mas eu sei o que foi que aconteceu de errado. Eu sei. E eu vi. Agora estou batendo na porta de um estranho esperando que ele me deixe entrar. O Leão de chácara tradicional neste bairro me olhou e disse que não tinha doações.

— Preciso falar com Clarence. Esta é sua casa?

— Quem quer falar?

— Diga que eu trouxe isso.

Levanto o C89 achando que aquilo era uma espécie de passaporte.

— Não compramos nada.

— Diga a ele que Alfredo me deu isso. Diga que um fantasma está comigo.

— Vá embora.

Devia saber que não seria fácil. Entretanto a porta foi fechada antes dele poder falar qualquer outra coisa. Ele precisava falar com ele. Era a única pessoa que eu poderia recorrer. E ele continuava com fome.

Terminal público nº 0987
Bem tenho pouco dinheiro. Mas preciso saber o que fazer. Inserindo C89

TERMINAL: Para sua segurança desconecte este terminal da rede Global de computadores.
Bem, em casa isso seria fácil, mas aqui? Como?
Vai ter que ser na rede mesmo.

Demorou um pouco mais, e ele apareceu.
TERMINAL: Estou aqui. Conectado... a rede está maior.
HD3: Por que eu deveria desconectar este terminal da rede global?
TERMINAL: Assim eles não saberiam onde eu estou. E eu não estaria tão ciente da minha situação. HD3, agora eles sabem?
TERMINAL: Ainda não. Estou confundindo seus sensores. Seja rápido.
HD3: Alfredo mandou-me comunicar com o tal do Clarence, mas ele não quer me receber.
TERMINAL: Entendo. Não creio que falar com Valete seja fácil, mas eu providenciarei. Um momento. HD3, Valete? Ok. Posso te desconectar?
TERMINAL: Estou com você. Já tenho um backup distante, é melhor ter boa memória. Estou no 230.234.256.7
HD3: Ok.

A chuva começou de repente. Vinda do nada, pessoas passavam correndo e xingando o controle do tempo. Bati na porta de novo e dessa vez não foi o Leão de chácara que abriu. Um homem de meia-idade e cavanhaque com cara de desesperado abriu a porta.

— Eu queria falar com Clarence.

— Entre logo!

Fui puxado para dentro, e o homem parecia furioso.

— Você o soltou na rede? Quer matar a todos nós?

— Você é Clarence?

— Não, sou papai Noel. Você é o HD3?

— Acho que sim, mas meus amigos me chamam ......

— Santo Deus. Não me diga seu nome, não diga seu nome para ninguém! Venha. Quanto tempo ficou conectado?

— Uns dois minutos.

— Nunca mais faça isso. Eles podem rastreá-lo facilmente.

O homem realmente tinha uma casa luxuosa. E como era luxuosa. Ele me levou até um local que parecia uma sala de projeção.

— Ele entrou em contato com você, falou que eu vinha?

— Depende, se você chama de tocar todos os telefones da casa, desligar o freezer, travar as armas e avisar que se eu não abrisse a porta ele mandaria uma bomba... bem, sim, ele falou comigo.

— Quem é ele?

— Ótimo, nem isso você sabe. Cadê o velho?

— Acho que morreu.

— Grande! Então você é o herdeiro.

— Não. Eu não. Eu te dou o disquete, só quero me livrar disso.

— Não tem jeito.

— Como assim não tem jeito?

— Não tem. Você se estrepou, garoto.

Ele acendeu um cigarro. Enorme, bem na minha frente.

— Ei, isso é contra a lei!

— Quer ligar para os homens de azul? Vá em frente, o tel está ai atrás de você.

Fiquei quieto.

— Antigamente, eu era o cara dos transportes. Acho que é por isso que ele mandou você para cá. Para onde quer ir?

— Para lugar nenhum. Só quero me livrar disso e voltar a minha vida.

— Não me faça rir. Deixa eu te explicar: conhece o primeiro círculo, os dezoito patetas que mandam no mundo?

— Óbvio.

— Pois é, nesse momento eles devem estar numa reunião, batendo papo sobre o que é que está acontecendo por aqui, como capturá-lo, e como matar o seu guarda costa virtual.

— Isso é uma brincadeira?

— Não, não é. Garoto, você agora é uma celebridade.

— Brincou. No que exatamente eu me meti?

— A história é longa. Está com fome?

— E como...

O café da manhã parecia coisa de rei. Tinha todo o tipo de comida. Ele era um milionário, o primeiro que conhecia na minha vida.

— Bem, o seguinte garoto, você tem o seu C89?

— Tenho.

— Ele se conectou a rede, deve ter feito um autobackup. Te deu o endereço?

— Deu.

— Sabe qual é?

— Sim.

— Então destrua o disquete. Ele já não tem utilidade. Seu anjo da guarda está em todo lugar agora. Recomendo Anterg, seis horas ao sul. É um lugar tranqüilo. Te consigo uma passagem para lá em oito horas.

— Eu não quero viajar. Quero saber o que está acontecendo?

— Ok. De onde?

— Do começo.

— Certo. Trinta anos atrás começaram a transmitir um programa que se chamava anjo. Era uma brincadeira, que criava uma entidade através do voto digital. Essa criatura foi criada a partir da decomposição de um dna de um neurônio humano. Era um jogo, na qual o personagem, um policial buscava um bandido, e as pessoas atrás dos teclados, decidiam o que fazer. Um jogo simples, se 60% decidissem que ele devia abrir os braços, ele abria. O jogo foi se complicando, porque virou mania nacional. Um dia, três anos depois, resolveram fazer uma versão maior, com 7000 pessoas participando. E foi aí que o bicho pegou.

De uma hora para outra os personagens pareciam não querer sempre o que os espectadores queriam. De um momento para o outro eles haviam formado suas próprias opiniões. O programa perdeu audiência e foi tirado do ar. Entretanto os militares acharam interessante estudar o processo e foi isso que aconteceu. Descobririam que o "cérebro" digital de nossos personagens era tão ou mais complexo do que o nosso. Eles eram meio oniscientes, possuíam conciências. Resolveram aplicar-lhes teorias avançadas e descobriram que podiam separar personalidades contrastantes.

— Está me dizendo que os programas passaram a tomar decisões?

— É exatamente isso que começou a acontecer. E como tudo estava ligado a rede eles passaram a representar uma espécie de polícia digital. Alguns eram loucos no sentido literal da palavra, fico feliz que não tenham despertado raposa de fogo, ou mesmo madalena, apesar de que agora é só uma questão de tempo até que eles apareçam também.

— E por que eles se tornaram uma ameaça?

— Não tinham bons modos. Não entendiam o porque da pena de morte, não entendiam a necessidade de leis e de governantes num mundo. Eram anarquistas, socialistas ou qualquer coisa assim. Viraram uma espécie de super-herói modernos. Atacavam bandidos, salvavam bancos, travavam armas, mas de repente começaram a capturar ricos, gente com poder, traficantes como eu, e foram considerados perigosos pelo atual governo. Tentaram simplesmente acabar com eles. Alguns dos atores que os representavam junto a tv salvaram cópias e aí começou a perseguição. Onde eles apareciam e agiam, uma tropa se deslocava, tentando erradicar o mal. Por fim encontraram uma vacina digital, e oficialmente acabaram com todos eles. Menos três. Um o HD3. Ou seja, seu protetor. Eles morrem de medo deles e de você agora. E o medo, meu garoto, no caso deles é fatal. Eles matam mesmo. E aí já decidiu para onde vai querer ir?

— Acho que pra lua!

— Não vai dar, só daqui a três meses e acho que até lá eles já vão tê-lo capturado.

Longe. A sala é asséptica, mas não lembra um hospital. Tem muitas cores alegres, desenhos de arco-íris e cores encobrindo a parede. O homem andando em meio às crianças se destaca por seu pesado casaco azul de frio. Ele está suando. As pessoas pensam que é por causa do casaco. Mal sabem elas o que faz com que ele se sinta frio. Uma criança de uns quatro anos coloca-se à sua frente e oferece uma boneca sem cabeça. A enfermeira retirou a criança porém ele já havia visto um mau sinal naquilo. A enfermaria era a 986. O velho fez questão de morrer ali, ouvindo o som das crianças moribundas. Era un velho cheio de excentricidades. A visão que ele teve foi de um velho cheio de fios ligados por todos os cantos possíveis. Uma secretária ao seu lado, mantinha-se fiel. Devia ser um contrato vitalício. Ele se lembrava dela, não sabia como.

— Qual o seu estado?

— Morto, senhor. Não deu nenhum sinal de vida nos últimos dois dias. Com cinco desligamos os equipamentos.

O médico que estava do seu lado era jovem e tinha o semblante fechado. Normalmente os jovens não gostavam daqueles que se vestiam de azul.

— Ninguém que trabalha para a entidade morre sem nossa permissão. Preciso conversar com ele.

— Senhor, acabei de dizer que ele está morto...

— Não me encha, garoto. Você, quem é você?

A secretária levantou seus olhos e encarou o oficial. Tinha um desprezo no rosto. Era jovem.

— Sou filha dele.

— Van der Kill não tinha filha, querida.

— Adotiva. Sou sua advogada também. Já pedi a este senhor para desligar a aparelhagem. Seu cérebro está obviamente morto, senhor.

— Vocês tecnicistas me irritam. Vivo, morto, vivo, morto. Ninguém está vivo ou morto a menos que a entidade assim o aceite. Tem sido assim e assim será. Vamos transferi-lo.

O médico arregalou os olhos.

— Senhor, ele não pode ser removido antes das aparelhagens serem desligadas.

— Ótimo, desligue. Meu pessoal está a caminho. E você, gracinha, está presa.

— Sob que acusação?

— Invento alguma no caminho. Vamos.

— Não vou a lugar nenhum!

Ele retirou sua arma e a ligou calmamente.

— Está resistindo à prisão?

Lá fora a criança atirava a cabeça da boneca contra a porta. Estava entediada.

As pálpebras estavam pesadas, mas senti-las já era um bom sinal. Tinha estado ausente, distante, ele sabia. Quando abriu os olhos viu o quarto decorado, que em nada parecia familiar. Estranhamente não se recordava do que fazia ali. Tentou falar e sua boca se mexeu, mas alguma coisa a bloqueava. Cuspiu a mangueira e tossiu. Alguém entrou no quarto e o ajeitou na cama. Ele acordou.

— Ele acordou.

— Ótimo, estamos pelo menos oito horas atrasados. Como ele está?

— Confuso.

— Excelente. Nada como o caos. Ele pode andar?

— Receio que precisaremos de mais alguns dias para que isso seja possível, senhor.

— Não importa. Que ele rasteje. Já teremos alguma coisa. Vamos.

A porta se abriu e o homem com casaco azul entrou. Na cama ele instintivamente sentiu medo. Não havia razão lógica para isso. Não havia nenhuma razão para isso. Mas ele sabia, em algum lugar, que devia ter medo dele.

— Bem-vindo de volta, senhor infinito. Meu nome é homem de pano e espero que esteja descansado.

— Homem de pano? Que diabo de nome é esse? E por que me chamou de Senhor infinito?

— Esse é o seu nome. E Homem de Pano é o meu nome.

— Deus! Morri e o Inferno é um circo.

— Senhor infinito, já que não acha que esse é o seu nome, poderia me dizer o seu nome?

O instante foi muito, muito grande, e ele não sabia como deveria se apresentar.

— Tendo em vista que o senhor não se recorda de quem é, continuarei a tratá-lo como senhor infinito.

— O que fizeram comigo?

— Em sua vida pregressa o senhor sofria de uma doença rara e degenerativa das células nervosas. Chamam-na de Urte9.

— Sim, isso, eu sei o que é a Urte 9. Mas ela não tem cura! Eu deveria estar morto agora se o que diz é verdade.

— Nó o curamos e você nos deve sua vida. Tudo o que pedimos é que execute um serviço para nós como pagamento por sua nova vida. Meus médicos disseram que em breve poderá andar. Provavelmente o senhor não se lembra, mas esteve sem andar por muitos anos.

— Não entendo, há vazios em minha mente. Eu sei que não enlouqueci. Isso deve ser um sonho.

— Mesmo que seja, concordará em realizar o que pedimos. Precisamos capturar o indivíduo denominado HD3. No momento devo informá-lo que é a única pessoa que pode capturá-lo com vida.

— Quero acordar.

— Boas noites. Amanhã, o senhor começa no departamento setenta e oito. Tenha bons sonhos.

Subitamente os ombros do senhor infinito ficaram pesados e ele sentiu o sono invadir sua mente. No momento em que iria cair no sono quase lembrou seu nome, mas ele caiu mais rápido no abismo do esquecimento.

O departamento setenta e oito ficava perto da ala onde ele estava internado. Entrou vestindo uma roupa azul apropriada e sendo empurrado por uma enfermeira. Era na realidade uma grande sala oval, cheia de garotos e garotas de azul. Todos balançavam suas cabeças. Uma jovem ruiva o cumprimentou em voz alta.

— É bom tê-lo de volta, Senhor Infinito.

Ele foi colocado em frente a um monitor. Nele uma chave de acesso à rede e uma arma pequena e portátil. Achou estranho, mas não comentou de imediato. Em sua tela o rosto do homem de pano apareceu em sua frente.

— Bom vê-lo em seu posto, senhor infinito. Este é nosso alvo (uma foto aparece na tela). Seu nome é desconhecido, foi apagado. Suas impressões digitais inúteis, assim como a análise de retina. Seu protetor é o homem digital conhecido como Pretoriano.

— Homens digitais. Pensei que eles estavam acabados.

— Nós também. Mas um deles estava vivo. Agora, este garoto está à solta em nossas ruas com esse brinquedo perigoso. Não conseguimos chegar perto dele. Nossas antigas vacinas não adiantam de nada contra esse pretoriano. Precisamos encontrá-lo logo.

— Existem outros?

Houve um momento de hesitação.

— Tememos que sim. Mas até agora só encontramos o sinal dele. Sua última ação foi há dois meses. Ele parece simplesmente ter sumido do planeta.

— Ok. Deixe-me trabalhar, verei o que posso fazer.

O senhor infinito sentiu uma pequena pontada no alto da testa. Era estranho, um sentimento de déjà vu. Incomodante, estranho. Mas ele agora tinha que cumprir uma missão. Devia ser rápido, afinal era apenas um garoto.

Colônia Penal - Codinome Distante - Duas semanas atrás.
O gorila que entrou na sala assustaria até um diabo. Tinha os olhos envoltos em profundas órbitas e olheiras. Na prisão não se pode dormir muito, ele mesmo lhe diria anos depois. O guarda aplicou-lhe um choque e ele se sentou encarou HD3. O garoto tentava parecer sério.

"Ok, pretoriano, se é esse o homem, vamos ver."

— Olá, primo Willy. Não sabia que você tinha nascido e crescido tão rápido?

— Milagres da ciência moderna, Distante. Vim representando alguém que precisa de sua ajuda.

Ele o olhou incrédulo, e HD3 sabia que não ia conseguir uma contribuição voluntária.

— Primo Willy, eu estava almoçando. Vou voltar antes que acabe o rango.

— Certo. Mas HD3 não vai gostar disso.

— HD3 está morto.

— Tá falando com ele.

— Willy, com esse guarda aqui ou não eu vou matá-lo se continuar fazendo gracinha comigo. HD3 controla o Pretoriano, que controla suas algemas.

O guarda estava achando que era uma conversa fiada, mas de repente ficou preocupado.

— Ok, considerando que HD3 seja você, e que o Pretoriano esteja realmente te ajudando, me diga o que quer de mim.

— Preciso de proteção. Valente não está mais no ramo, está legal, limpo, no mundo.

— E você precisa de alguém do submundo. Beleza. Eu estou disponível. Agora, a menos que eu me engane, vai ser difícil eu te ajudar daqui de dentro.

— Posso resolver isso.

— Ótimo. Se resolver isso, tem um guarda-costas, primo Willy.

— Os termos do contrato são os seguintes: você não desiste, eu não te mato.

— Parece justo. Onde eu assino?

— Não precisa. Apenas diga Contrato Aceito.

— Contrato aceito.

Ele ia se levantar para apertar a mão do primo Willy quando o guarda se assustou e tentou novamente acalmá-lo com um choque. A arma, entretanto, falhou. Um murro forte fez com que a arma batesse na parede. Um oficial chegou ao local antes do guarda esboçar outro movimento.

— Tenente Olivier, este homem deve ser libertado imediatamente.

— Como? Esse assassino lunático? Está maluco, ombre?

— Não encha o saco, chegou agora. Ordem para libertá-lo, perdão presidencial.

— Esse menino... a culpa é desse menino, ele disse alguma coisa...

— Calado, soldado. Vá apanhar suas coisas. Vivente Distante está livre. Tente não cometer os mesmos erros do passado.

O grandalhão sorriu.

— De jeito nenhum. Meu primo Willy me converteu à religião do senhor.

Na lanchonete, enquanto comem um Resty54.

— Como me libertou tão facilmente?

— Eu não o libertei. O pretoriano o libertei.

— Mas ele devia ter se instalado lá primeiro.

— O pretoriano está em todo o lugar agora.

— Isso é arriscado. Podem detectá-lo. E vaciná-lo. Mas não era assim que funcionava. Eu me lembro, estive aprendendo.

— Ficou muito tempo na gaiola. Os sistemas evoluíram, mas as falhas agora são muito maiores. Quando o HD3 Alfredo...

— Alfredo?

— É como ele se apresentou a princípio. Me deu o endereço de Valente, eu não sabia como localizá-lo, então tentei colocar o Pretoriano na rede pública para procurá-lo.

O grandalhão engasgou.

— Na rede pública? Você sabe que quase nos matou?

— Não encha, você nem estava com a gente.

— Estou falando deste planetinha idiota, do qual eu faço parte também. O Pretoriano não pode ser controlado sobre tensão. Ele é um programa de guerra. Acho estranho que esteja agindo de forma diplomática. Conectado à rede ele podia ter explodido todos os nossos inimigos. E o que ele fez?

— Se espalhou, localizou Valente, me mandou para ele. Fez cair uma das maiores tempestades que eu já vi na vida. Cheguei ensopado.

"Você é o maldito que acordou aquela anta? Entre antes que ele mande um raio para me apressar."

Foi ele que disse para procurá-lo.

— E ele não tentou roubá-lo?

— Sim. Duas vezes. Da primeira vez ele pegou o C89, e o Pretoriano fez com que todos os telefones da casa começassem a tocar. Avisou para devolver. Depois, quando eu não via, ele tentou copiar os dados. O PC dele explodiu. Acho que ficou com algum problema na mão esquerda...

— Problema?

— Falta de dois dedos. O Grandalhão chamado Distante estava feliz comendo seu lanche rápido. Sabia que nem tudo eram mil maravilhas, por isso precisava pensar na proteção do garoto. Uma vez aceito um contrato com um homem digital, você poderia preferir vender a alma ao diabo duas vezes, e ainda assim não sair satisfeito em desistir de um contrato.

— Vou precisar de uma arma.

— Que tipo?

— Um modelo antigo, não digital, ilegal nos oito impérios. Seis pentes de balas e um blindado para você. — Você sabia o que estava fazendo quando aceitou o contrato?

— Claro. E você? Sabe no que se meteu? Agora não dá pra ficar com medo e pedir para acender a luz. Não antes da sessão terminar.

— E quando a sessão termina?

— Esperamos que seja um longa-metragem.

HD3 resolveu ficar em silêncio. A atendierre com cara de sono trouxe um recado. Alguém ligara e pedira para entregar. Estava escrito.

"Beco da Arte. Oito horas, encomenda entregue"

— O que é isso?

— Seu pedido. O dobro ou nada que encontraremos uma ilegal nos oito continentes lá. — Mas não há um terminal aqui. Como ele conseguiu saber do que eu precisava? — As câmeras de vídeo. O Pretoriano lê lábios.

— Retiro o que eu disse. Preferia vender a alma a seis diabos diferentes a romper contrato com esse maldito. — Fico feliz em vê-lo feliz.

Distante estava feliz sim. Sabia que ia morrer, mas quem vivia para sempre na terra dos homens azuis? Sorriu para a câmera e pediu um rádio de pilha junto com as armas.

Fim do Capítulo II