
Os Pães murcham mais cedo na época da chuva.
Quando terminou a guerra meu pai me disse: mantenha a honra. Isso foi dito de forma civilizada, enquanto ele fugia pela porta dos fundos da minha residência, no 14º andar. Não sou grande coisa, e duvido que meu pai se orgulharia de mim. Também não me orgulhei dele espalhado como tinta no asfalto, sendo coletado com uma colher.
Tenho menos altura do que deveria ter, não tenho certeza de nada de bom, recebe pouco e de noite fico pensando em como seria morar em uma casa de verdade e não num maldito apartamento do centro. À noite, no plantão de sábado, sou cortês com os homens da lei e sempre dou o desconto padrão. Vez por outra, Cid aceita sair comigo.
Mas felicidade não é coisa desse mundo mesmo. Não dá para imaginar uma terra feliz hoje em dia. Não quando se olha pela janela e vê a cor do céu.
Trabalho oito horas num Outyr. É uma mistura de padaria, lanchonete e bar. Não sei quando passamos a nos denominar assim, mas não podemos mais nos chamar apenas de padaria. Atendo pessoas de dia. Nas noites, principalmente às quintas-feiras, eu atendo mesas à noite. São apenas oito e o movimento sempre é pequeno. Vendemos todo o tipo de bebida legal. Guardamos um pouco da verdadeira para os dias de Ano Novo e Natal, apenas para deixar em todos a expectativa de que e uma época especial está por vir.
Não tenho uma profissão invejável. Mas no fundo não tenho uma vida infernal. Pelos menos, tenho apenas uma vida. Tento fazê-la valer a pena.
Do meu balcão prateado, suspenso no ar, com um pequeno monitor acompanho os pedidos. Anos atrás nossos clientes dariam gorjetas. Hoje não. Hoje tudo o que podemos fazer é rezar que seus programas de diálogo estejam desligados e que eles não se atrevam a nos interromper com seus papos longos justo na hora de fechar. É o máximo que podem fazer por nós. E isso é tudo.
Seu nome era Alfredo. Hoje acho que era um nome falso, mas ele se sentava no mesmo lugar há pelo menos dois anos. Dois anos pelo que eu passei a reparar nele. Sempre havia uma música ambiente mais calma para ele. As garçonetes faziam piadas sobre o velho e sua trilha sonora. Quando os homens da lei fazem suas batidas tradicionais, eles simplesmente esqueciam que ele existia. E ele continuava a beber.
Um dia ele me deu uma gorjeta e eu perguntei como deveria chamá-lo. Foi quando ele disse que seu nome era Alfredo. Sua voz saiu rouca e forte.
Não sou um cara alto, mas também não sou tão baixo que não pudesse me alistar, mas muito menos do que gostaria quando pensei em servir de companheiro para a senhorita meu-coração-partido alguns anos atrás. Vieram muitas senhoritas meu-coração-partido depois, e hoje eu sei que não tinha nada a ver com a altura, mas com outras coisas um pouco mais complicadas.
O homem sentado na mesa, Alfredo, devia ser alguém importante. Porque todo mundo o ignorava. E ele permanecia. Permanecer nos tempos de hoje, existir aqui sem ser notado pode, e deve, ser considerado como um grande dom. Ele tinha muitas qualidades engraçadas. Não pagava como todos, debitando créditos, tinha que pagar em notas antigas. Não aceitávamos isso de mais ninguém, mas o gerente nos obrigou a não questionar. A lei nos obrigava a ser corteses, e nós seríamos. Era um homem de idade avançada e que se vestia sempre da mesma forma. Tinha um ar meio aristocrata, e não prestava atenção ao seu redor. Também não carregava um conector, como todo mundo. Era um homem desligado. Provavelmente sua aposentadoria não lhe permitia manter um.
Foi na quinta-feira que as coisas aconteceram. Eu estava de plantão sozinho, com apenas Alfredo como cliente. Eu o estava atendendo quando o Sargento M entrou.
— Acho que vou prendê-lo hoje, rapaz.
Olhei assustado para ele.
— Brincadeira. O de sempre.
Terminei de servir o HYT para o velho e fiquei tremendo enquanto o sargento fazia piada sobre os Genéticos Treze, uma colônia estranha que aparentemente estava se formando no Setor Oito. Agora tudo e todos eram números.
— Você poderia se alistar, garoto. Ficaria bem de azul.
— Acho que não gosto muito de azul, senhor...
As palavras saíram inconscientemente e eu vi a besteira que tinha dito nos olhos daqueles homens.
— Por acaso é um dissidente?
— Eu? Sou padeiro, Sr. Não discuto política. Não sou um militante. Não sou nada.
— Então devia tomar cuidado com sua língua. Dê um capuz para ele. Vai usá-lo de agora em diante, ou será preso.
O soldado pediu um capuz azul e me pediu para vesti-lo.
— Sr., posso perder o emprego.
— Dane-se. Não gostamos que zombem de nosso uniforme.
— Mas...
Não precisava ser muito esperto para saber que aquilo era encrenca. Foi quando tentaram me colocar aquele capuz horrível que Alfredo se levantou e colocou a mão no braço do soldado.
— O que quer, velho?
— Deixe o menino. Ele não precisa lhe provar nada. Ele é um nada. Deixe-O. Satisfaça seu ego chutando um ytes ou qualquer outro.
As coisa podiam esquentar e desde então eu pensei muito a respeito dos segundos que se seguiram. O homem era um desconectado, com um braço velho e forte segurando um agente da lei, um Homem de Azul. E ele simplesmente o soltou, com uma cara de horror.
— Desculpe. Estávamos apenas conversando.
— Conversar demais cansa a língua. Sente-se. Ou vá embora. Deixe meu atendiere em paz.
O Homem de Azul não respondeu nada. Apenas se dirigiu para a porta. Depois de me olhar eu sabia que tinha me metido em encrenca grande mesmo.
Alfredo não conversava muito, provavelmente por ser um off-line, um desconectado. Esse tipo de gente é meio antissocial. Me chamou e depois desligou o visor de sua mesa. Eu ainda devia estar tremendo, ou meio azul. No momento achei que havia perdido o emprego. Agora posso ver que eu estava sendo otimista.
— Gosta dessa vida, garoto?
— Gosto, Sr.
— Então é melhor parar de gostar. Eles vão voltar e eu não vou poder estar aqui. Agora já sabem que eu existo de novo. Você não pode ir para casa. Vão segui-lo. Acho que você acabou de se tornar uma celebridade, garoto.
— Não quero ser uma celebridade, sr. Quero vender meus pães e viver.
— Então é melhor comprar um perfume de pão francês. Encontraram algo que não estavam procurando. Estão assustados, mas isso não vai durar para sempre.
Os Homens de Azul faziam um barulho especial com os pés quando queriam. Era um barulho que se ouvia a distância. Esse barulho começou devagar.
— Traga-me um guardanapo, garoto. Acredita em Deus? Ore. Acredita no Diabo? Ore. Não acredita em nada? Ore.
— E o que o sr vai fazer com um guardanapo?
— Limpar a boca desse HYT horrível que vc me serviu. Depois vou pensar em como você pode escapar.
A cozinha do Outyr era pequena e tinha apenas um monitor interligado ao centro de atendimento da central Outyr, nosso sindicato patronal. Nunca me habilitara a mexer no terminal. Agora um cliente velho mexia no teclado a uma boa velocidade, e fazia isso enquanto reclamava de meu HYT. Eu podia perder o emprego se o chefe assistisse à gravação da noite, mas acho que o medo não me deixava pensar no que estava acontecendo. Ele desconectou da parede o terminal. As coisas estão se complicando, pensei. Havia um zumbido no ar, um zumbido ruim. Muitas vezes mais alto do que uma blitz comum de quando eu ainda frequentava festas clandestinas.
— O.k., garoto. Vê isso?
Era um compartimento 89, uma forma antiga de armazenar dados de texto.
— Bem, a história é longa, mas eu sei que desta vez me danei. Devia ter ficado quieto. Mas ainda tenho um pouco de sangue para derramar antes de tudo acabar.
— Senhor, eu posso pedir desculpas ao...
— Isto está un pouco além de sua compreensão, garoto. Este C-89 contém o que nós chamamos de elixir da longa vida. Estou escrevendo neste cartão o nome da pessoa que você deve procurar quando sair daqui, dentro de 15 minutos. Vou mostrá-lo de forma que nenhuma câmera possa vê-lo. Não diga o que está lendo em voz alta.
Ele ergueu o pequeno cartão bem próximo dos meus olhos. Depois o rasgou, o mastigou, e em seguida o engoliu.
— Por que você fez isso?
— Não estou reclamando. O gosto é melhor do que o de seu HYT. Vamos agora ao que interessa. Esse C89 é seu agora. Ele provavelmente vai tirar esse cheiro de pão francês de você. Agora acredite em mim: eles o matarão se o pegarem. Dê o fora assim que for possível. Estou morrendo mesmo, tenho apenas dias de vida. Acho que os trocarei pelos próximos dois minutos.
— Deus, acho que vc é louco.
Ele me olhou. Percebi que aqueles não eram olhos de louco. Ele reconectou o terminal e inseriu o C89.
— Acredite em mim, garoto, não desgrude desse brinquedo depois que eu partir. Lembre-se que isso aqui agora será seu anjo da guarda.
Terminal: Estive muito tempo longe. Não consigo recuperar dados.
Velho: Não se preocupe, o garoto o guiará.
Terminal: E os outros?
Velho: Acho que já se foram, velho amigo.
Terminal: Entendo. Eu também não deveria estar aqui, deveria?
Velho: No, mas não quero morrer na prisão, e já não tenho como fugir. Preciso de você de novo.
Terminal: Sempre estamos prontos. Este é o mundo melhor que planejamos?
Velho: Dificilmente. Este garoto, consegue vê-lo?
Terminal: Sim.
Velho: Ele é o novo HD3. Proteja-o.
Terminal: Estão entrando.
— Uma pena. Achei que com o avanço da tecnologia poderia beber com vc um dia desses...
— Atenção, garoto, fique aqui. Quando as portas se abrirem, obedeça o terminal. Tome, esta é sua lâmpada de Aladim. Seu nome é Pretorius. Pode chamá-lo de Pretoriano, ele prefere.
Neste instante o Sargento M entrou dentro do Outyr com suas armas digitais engatilhadas e uns cinco soldados. Todos sorrindo.
— HD3, você está preso. Saia.
Alfredo saiu calmamente e ficou frente a ele. Deixou o casaco cair no chão e mostrou que estava desarmado.
— Estou impressionado. Quando me tocou, meus terminais o reconheceram imediatamente. Porque diabos não se matou, homem? Poupar-nos-ia tempo nos tribunais.
— Gosto de você. Deixarei vc vivo.
— Isso não é uma história de artes marciais. Estamos no mundo tecnológico. Aqui as pessoas não voam pelos ares e chutam armas. Aqui elas são presas, quando for nossa prerrogativa.
— Por que este homem está sendo preso, Sr?
Alfredo me olhou de soslaio.
— Ele? Você também está preso. Principalmente você. Principalmente vc. HD3 é acusado de 36 atos terroristas, de 730 invasões digitais, em seu nome e de seu grupo. Achei que o último Homem Digital estava morto há pelo menos 3 anos.
— Somos uma raça em extinção.
— São uma praga. Gostei da conversa. Vamos, prendam todos.
— A propósito: ELE está aqui, sargento.
— ELE? Acha que eu acredito nesses boatos idiotas. Prendam-no.
Alfredo dá um estalo de dedos e as luzes tremem.
— Ele está aqui, sargento. Suas armas estão travadas, a menos que nos dê livre acesso explodirei dois de seus homens.
— Homem, posso matá-lo.
Um estalo de dedos. Duas armas explodem e dois homens caem em chamas. O Sargento tenta disparar mas sua arma não funciona.
— Maldições!!!
— Velho eu estou, é bem verdade, mas o imortal ainda está aqui e ele me protege. E protege o garoto.
— De nós pode ser. Mas não vamos dar trégua. Vocês não sairão daqui. Os homens de azul montarão guarda até que você se entregue.
— Não acontecerá.
Os homens de azul saem. O velho se senta.
— Eles estão lá fora.
— Deve sair daqui a pouco. Eu vou distraí-los. Eles estão com armas antigas sendo trazidas. Ele confundiu os rádios, os radares, mas a Inteligência Azul está vindo para cá. Suas armas modernas não servirão de nada.
— No que diabos eu me meti?
— Ele está de volta, garoto. Agora eles temerão você como temiam a mim. Vamos, coma um pedaço, vc provavelmente ficará com fome quando estiver correndo.
— Isso é uma piada de péssimo gosto.
— A experiência era interessante. Mas ficou fora de controle. Os Homens Digitais existem há muitos anos e ninguém pode, ou deve saber. Agora é por sua conta e de Pretorius.
— Quem é ele?
— Letras, códigos de computador. Se você abrir seu C89 vai encontrar aproximadamente 5000 páginas de código digital. Uma forma primitiva mas eficiente de criar o que nós chamamos de Homem Digital, uma presença falsa que transita pela rede e realiza coisas.
— Realiza?
— Hoje se faz tudo pela Rede. Lembra do assassinato do Rabino Alter T, doze anos atrás? — Que desencadeou a guerra dos 23 dias.
— Ele não foi morto. Apenas um dos Homens Digitais transmitiu as imagens geradas dele sendo morto para o mundo todo. Então o mataram de verdade achando que ele era um impostor. E tivemos uma guerra onde 8.000 pessoas morreram.
— Mas como eles fazem isso, que diabos são eles?
— Cérebros traduzidos. Complexos demais. O homem que os criou está em prisão perpétua. São anarquistas por natureza.
— Deus. E agora como você vai escapar?
— Eu? Eu não quero escapar. Estou morrendo, garoto. Há anos estou morrendo. Vi meus amigos serem presos, isso me impediu de utilizá-lo. Agora, entretanto, acho que vc pode fazer um bom proveito disso. Ou então pode passar o resto da vida na cadeia. Quanto a mim, estou meio cansado.
— Senhor, tem gente lá fora que está querendo nos matar. Essas pessoas são a lei e a ordem. Eles querem prendê-lo? É um criminoso?
— Sim, sou um criminoso. Mas não do tipo comum. Sou um anarquista.
— Brincou! O que eles querem com um anarquista?
— Esta — ele mostra o C89 — é sua lâmpada de Aladim. Há um gênio dentro dela. Peça a ele para que as armas digitais deles parem, elas param. Peça a ele que chova no setor trinta e oito, choverá. Ele é um cérebro eletrônico, digitalmente disperso pela rede, esse código o monta como um mapa de quebra cabeça.
— Desculpe, não entendo isso.
— Não se preocupe. Ninguém entende. As coisas acontecem da forma que têm de acontecer. Somente isso.
— Agora, preste atenção: quando eu me for, você foge. Isso é claro para você?
— Sim.
— Ótimo. Poderia me fazer uma ligação para a Ciud U Ter?
— Eu?
O telefone começa a tocar.
— No. Ele nos escuta através do sistema de monitoramento. Hoje é fácil ler as mentes das pessoas.
— Brincou.
Telefone:
— Sou eu. Problemas? Acho que estou partindo. O médico não havia lhe dado um mês? Cansei de esperar. Tenho um amigo novo. A lâmpada está com ele. Alguém que eu conheça? Não. Eu também não o conheço. Mas parece ser do nosso tipo. Deus, mais um estúpido! Um beijo, querida. Outro. A gente se fala noutro mundo.
Lá Fora:
— Por que diabos não chegaram os reforços ainda?
— Ele confundiu nosso sistema de comunicações. O maldito está solto, senhor. Achei que ninguém ia ser idiota de soltar um deles pelo mundo de novo.
— Alguém da Planet You já sabe disso?
— Graças a Deus, não. Eles vão tentar escapar, senhor. Precisamos entrar rápido.
— O maldito controla o complexo.
— Azar. Precisamos de tempo, e isso não temos. Quando a cavalaria chegar mande avisar que nós estamos lá dentro, matando um velho e uma criança.
— O fantasma não deixará, senhor. Acho que é Pretorius.
Um oficial se aproxima com uma tela na mão.
— Chamada, senhor.
— Quem?
— O Fantasma.
O terminal exibia um código de tabela periódica e a voz que saía era suave.
— O garoto está saindo. Se encostarem nele, eu estouro duas bombas em seu quartel general.
— Achei que vocês haviam sido delatados.
— A contagem é de um minuto.
A tela se apaga.
— O maldito agora me ameaça.
Lá dentro:
— O.k., garoto, obrigado pelo HYT. Agora precisamos que saia correndo. Sabe quem procurar, não sabe?
— Sim.
— Ótimo. Eu prometi a Pretorius que um dia beberia uma cerveja de verdade com ele. Se conseguir viver, faça isso por mim.
Eu o olhei com cara de incredibilidade.
— Vou entender seu silêncio como um acordo. Pretorius, adoraria que chovesse após a minha morte. Lavar o velho.
(Uma bomba entra pela janela estilhaçando e enchendo o ambiente de gás. Um exaustor da cozinha é automaticamente acionado. O ar fica limpo.)
— Boa sorte, HD3.
— Mas...
— CORRA!!!!
Os homens entraram atirando com armas convencionais. Os pés se alternaram com o coração na boca, e portas que se abriam e fechavam, e atravessou as portas e chegou na rua. No mesmo instante os soldados foram distraídos pela explosão de um transformador elétrico. Corra. Seu coração pedia isso. Ao longe tiros e mais tiros.
Lá dentro os homens de fora:
— O velho está morto.
— Eu sei. Se matou, o maldito. E o garoto, estão perseguindo, mas os sensores não estão funcionando corretamente. Precisamos de uma vacina contra esse maldito programa.
"Não sou um programa. Sou uma ideia."
— Ele ainda está nos monitorando. Desligue a energia desse lugar e destrua os geradores. Ganharemos tempo.
— E o garoto, senhor?
— Ele tem um brinquedo bom nas mãos. Mas não sabe brincar. Temos que pegá-lo antes que ele aprenda. Lá fora a chuva começa a cair como um réquiem.

